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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Papa confirma compromisso da Igreja contra antissemitismo

E exige reconhecer e condenar a Shoá

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009 (ZENIT.org).- Bento XVI reconheceu nesta quinta-feira o horror do Holocausto e confirmou o compromisso da Igreja na luta contra o antissemitismo, ao receber uma delegação judaica procedente dos Estados Unidos.

«A Igreja está profunda e irrevogavelmente comprometida na rejeição de toda forma de antissemitismo e na construção de relações boas e duradouras entre nossas duas comunidades», disse-lhes o Papa ao dar-lhes as boas-vindas no Vaticano.

Seus hóspedes eram os membros da Conferência dos Presidentes das Maiores Organizações Judaicas Norte-Americanas, recebidos em audiência na Sala do Consistório do Vaticano.

O encontro serviu para superar qualquer dúvida sobre a posição do Papa e da Santa Sé sobre a Shoá, após as declarações de negação do bispo lefebvrista Richard Williamson.

«O ódio e o desprezo por homens, mulheres e crianças, manifestados na Shoá, foi um crime contra Deus e contra a humanidade», assegurou o Papa.

«Isso deveria ficar claro para todos, em particular para quem pertence à tradição das Sagradas Escrituras, segundo as quais todo ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus.»

«Não há dúvidas – assegurou – de que toda negação ou minimização deste terrível crime é intolerável e totalmente inaceitável.»

«Este capítulo terrível da nossa história não deve ser esquecido nunca», sentenciou.

O Papa sublinhou a importância de recordar aquela tragédia para «evitar que se repita uma catástrofe como esta na família humana».

«Meu fervoroso desejo é que a memória deste espantoso crime fortaleça nossa determinação por curar as feridas que durante tanto tempo mancharam as relações entre cristãos e judeus», confessou.

Neste sentido, recordando que estas relações em dois mil anos sofreram momentos dolorosos, o Papa sugeriu que «não temos que permitir que as dificuldades passadas nos impeçam de estender reciprocamente a mão da amizade».

«A declaração do Concílio Vaticano II Nostra Aetate foi um marco no caminho rumo à reconciliação e sublinhou claramente os princípios que orientam desde então a atitude da Igreja nas relações entre cristãos e judeus», sublinhou.

As palavras de saudação ao Papa foram dirigidas por Arthur Schneider, presidente da Fundação Appeal of Conscience, que havia acolhido o Papa na Sinagoga de Park East durante sua visita a Nova York, de abril passado.

«Como um sobrevivente do Holocausto, estes dias foram dolorosos e difíceis, ao confrontar-nos com a negação do Holocausto por parte de um bispo da Fraternidade de São Pio X», afirmou.

«As vítimas do Holocausto não nos deram o direito de perdoar os culpados nem os que negam o Holocausto. Obrigado por compreender nossa pena e angústia», concluiu.

Levantamento de excomunhões procura sanar um cisma, precisa Cardeal Castrillón



ROMA, 10 Fev. 09 / 06:02 pm (ACI).- O Presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, Cardeal Darío Castrillón Hoyos, precisou que o levantamento da excomunhão aos 4 bispos ordenados pelo arcebispo Marcel Lefebvre, procurava antes de mais nada sanar um cisma; e não tinha a intenção, em nenhum caso, de apoiar as teses negacionistas do bispo Williamson.

Em uma entrevista concedida a RCN, o Cardeal ressaltou, perguntado pela atual sitaução logo do levantamento das excomunhões aos 4 bispos lefebvristas, que "sempre tive a verdade como norma. O Santo Padre conhece isso. Nós continuamos adiante tratando de que se reconstrua esta unidade da Igreja e termine totalmente este cisma".

Seguidamente, o Presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, criada por João Paulo II para o diálogo com os lefebvristas, precisou que "o importante neste momento é que o Papa parou um cisma. A caridade que Cristo queria que houvesse na Igreja se há notavelmente restabelecido e se abrem vias de esperança".

Ao mostrar seu rechaço às teses negacionistas de um destes 4 bispos, o britânico Richard Williamson, o Cardeal Castrillón assinalou que "o Santo Padre rechaça totalmente o que se fez na Alemanha contra o povo judeu. Não aceita nada que seja uma ofensa contra o povo judeu. Temos por eles amor. Não esquecemos nunca que Jesus era judeu, Maria era judia e os apóstolos eram judeus".

"Como todo homem honesto do mundo rechaçamos visceralmente o que ocorreu aí (no holocausto). Como cristão o rechaço e como católico me uno às teses de nossa Igreja, que pede que não se esqueça, para que a humanidade não repita atrocidades semelhantes", adicionou.

O Cardeal reiterou logo "o rechaço a toda forma de anti-semitismo e a asseveração histórica de que lamentamos os horrores do holocausto".

http://www.acidigital.com/noticia.php?id=15293

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Bispo que negou Holocausto pede desculpas

Carta de Dom Richard Williamson

ROMA, segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009 (ZENIT.org).- Dom Richard Williamson, o bispo tradicionalista que em declarações à televisão negou a verdade histórica da Shoá judaica, pediu perdão a Bento XVI em uma carta.

Na carta, enviada ao cardeal Darío Castrillón Hoyos em 30 de janeiro, o prelado afirma que «em meio a esta tempestade levantada por comentários imprudentes de minha parte na televisão sueca, rogo-lhe que aceite, com o devido respeito, meus sinceros arrependimentos por ter causado ao senhor mesmo e ao Santo Padre tantos sofrimentos e penas inúteis».

«Para mim, o que realmente tem importância é a Verdade Encarnada e os interesses de sua única verdadeira Igreja, através da qual, e somente dela, é possível salvar nossas almas e dar glória eterna, em nosso modesto modo, ao Deus Todo-Poderoso», acrescenta.

Citando uma frase do profeta Jonas (1, 12), afirma: «Tomai-me e lançai-me ao mar e o mar se acalmará em torno de vós, porque eu sei que é por minha causa que esta grande tempestade se levantou contra vós».

O bispo conclui sua carta pedindo ao cardeal que «transmita ao Santo Padre meu sincero agradecimento pessoal pelo documento assinado na quarta-feira passada e divulgado no sábado», com o qual retirou a excomunhão dos quatro bispos.

Segundo explicou a Santa Sé, retirar a excomunhão não significa estabelecer os bispos nas funções de governo da Igreja. A Conferência Episcopal da Suíça declarou que continuam suspensos de suas funções como bispos (suspensão ad divinis).

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Bento XVI defende Concílio Vaticano II e condena negacionismo antissemita

O jornal vaticano esclarece informações sobre a renovação das excomunhões

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 26 de janeiro de 2009 (ZENIT.org).- O compromisso de Bento XVI na aplicação do Concílio Vaticano II não muda pelo fato de ter levantado as excomunhões de quatro bispos consagrados por Dom Marcel Lefebvre em 1988, esclarece o jornal da Santa Sé, constatando a criação de um «caso de mídia».

Carlo Di Cicco, subdiretor do L'Osservatore Romano, considera que nestes dias os meios de comunicação se equivocaram quando, «com precipitação, culparam Bento XVI não só de ter cedido a posições anticonciliares, mas inclusive de cumplicidade ou ao menos imprudência ao apoiar teses negacionistas sobre a Shoá», o Holocausto judaico.

O jornal vaticano se referia à polêmica surgida horas antes de a Santa Sé anunciar a revogação da excomunhão, quando meios de comunicação republicaram declarações que havia pronunciado em novembro à televisão sueca um dos bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X reabilitados, Dom Richard Williamson, adotando pessoalmente teses «negacionistas».

Imediatamente depois, a Rádio Vaticano declarou que se tratava de «posições pessoais, que não podem ser compartilhadas e que não afetam o Magistério pontifício nem as posições da Igreja solenemente enunciadas em várias ocasiões».

Segundo o L'Osservatore Romano, a atribuição ao Papa dessas declarações que não lhe correspondem foi desmentida por ele mesmo neste domingo, jornada de encerramento da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos e por ocasião do Ângelus.

Bento XVI afirmou que «entre nós, os idosos certamente não esquecem» o primeiro anúncio do Concílio Vaticano II feito por João XXIII, em 25 de janeiro de 1959, há exatamente 50 anos, um gesto que o Papa definiu como «decisão sábia» sugerida pelo Espírito Santo.

Precisamente, declara o jornal vaticano, a revogação da excomunhão deve ser entendida como um gesto que se enquadra no espírito do Concílio Vaticano II.

«A reforma do Concílio não se aplicou totalmente, mas já está tão consolidada na Igreja Católica que não pode entrar em crise por um gesto magnânimo de misericórdia, inspirado, também, no novo estilo de Igreja promovido pelo Concílio, que prefere o remédio da misericórdia ao da condenação», explica o subdiretor.

«A revogação que suscitou tantos alarmes não conclui um caso doloroso como o cisma lefebvriano – declara o jornal. Com ela, o Papa elimina pretextos para infinitas polêmicas, enfrentando o autêntico problema: a aceitação plena do magistério, inclusive, obviamente, o Concílio Vaticano II.»

«Ainda que seja verdade que a Igreja Católica não nasce com o Concílio, é verdade também que a Igreja, renovada pelo Concílio, não é uma Igreja diferente, mas a mesma Igreja de Cristo, fundada sobre os apóstolos, garantida pelo sucessor de Pedro e, portanto, parte viva da tradição.»

«Com o anúncio do Papa João, a tradição não desaparece, mas continua ainda hoje segundo as formas próprias de uma pastoral e de um magistério atualizado pelo último grande Concílio.»

L'Osservatore Romano considera que tampouco é justo dizer que o Papa «não está convencido do caminho ecumênico e do diálogo com os judeus. Os compromissos estratégicos de seu pontificado estão à luz do sol e cada um dos atos pastorais e de magistério avançam claramente na aplicação da estratégia anunciada no momento de sua eleição».

«O diálogo é parte constitutiva da Igreja conciliar e Bento XVI repetiu em várias ocasiões, e agora voltaram a fazê-lo, que o ecumenismo exige a conversão de todos – também da Igreja Católica – a Cristo. Em uma Igreja convertida, ‘as diversidades deixarão de ser um obstáculo que nos separa e passarão a ser uma riqueza na multiplicidade das expressões da fé comum’.»

«A revogação da excomunhão não significa ainda a plena comunhão – acrescenta o jornal. O caminho de reconciliação com os tradicionalistas é uma opção colegial já conhecida pela Igreja de Roma, e não um gesto repentino e imprevisto de Bento XVI.»

«Da aceitação do Concílio se deriva necessariamente também a clara posição sobre o negacionismo. A declaração Nostra aetate, o mais autorizado giro católico com relação ao judaísmo, deplora ‘os ódios, perseguições e manifestações de antissemitismo de qualquer tempo e pessoa contra os judeus’.»

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Três erros sobre a oração pelos judeus em latim da Sexta-Feira Santa 2008

Declaração do Pe. Remaud, especialista em estudos hebreus

ROMA, quinta-feira, 22 de janeiro de 2009 (ZENIT.org).- A oração pelos judeus da Sexta-Feira Santa segundo o rito de João XXIII, não diz «oremos pela conversão dos judeus» mas «oremos pelos judeus», aponta a ZENIT o Pe. Michel Remaud, diretor do Instituto Cristão de Estudos Judeus e de Literatura Hebraica de Jerusalém.

Por ocasião do Oitavário pela Unidade dos Cristãos, de 18 a 25 de janeiro, a Conferência Episcopal Italiana (CEI) havia instituído uma jornada de diálogo com o judaísmo em 17 de janeiro. Os rabinos italianos não participaram, devido à aprovação por parte do Papa desta oração.

O texto do Ofício de Paixão da Sexta-feira Santa em latim, autorizado para seu uso «extraordinário» por Bento XVI, que se usou pela primeira vez na oração universal da Sexta-feira Santa de 2008, não diz «Oremus pro conversione Judaeorum» mas «Oremus et pro Judaeis», após a supressão de «perfidis», há quase cinquenta anos, pelo Papa Angelo G. Roncalli.

«Em um terreno tão delicado», como é o das relações entre cristãos e judeus, o Pe. Remaud recomenda «ser rigorosos».

Para o Pe. Remaud, a questão é a seguinte: «o cristão que expressa sua fé utilizando as fórmulas do Novo Testamento deve ser acusado de vontade de conversão quando dialoga com os judeus?».

Também, o especialista considera que é importante ter em conta os elementos litúrgicos do debate. Neste sentido, afirma, os jornais com frequência comentaram três erros.

Não é uma questão ligada à missa em latim

Antes de tudo, não é uma questão ligada à «missa em latim», pois a missa em latim também se celebra segundo o rito posterior ao Concílio Vaticano II, aprovado por Paulo VI.

É uma versão que se usa muito nas assembléias internacionais, em Lourdes e em Roma, por exemplo. Não se trata, portanto, de eleger entre a «missa em latim» ou a língua vernácula. Este é um alarme falso, declara.

«Para denominar o rito anterior à reforma de 1969 – sublinha o Pe. Remaud –, os jornalistas criaram a expressão, cômoda mas inadequada, de "missa em latim"».

Na realidade, adverte, o que distingue o antigo rito não é o uso do latim, porque o missal promulgado em aplicação da reforma conciliar está redigido originalmente em latim, e se usa contemporaneamente às suas traduções em línguas vivas».

Não é uma questão ligada à missa

Tampouco é um problema de «missa», acrescenta, porque na Sexta-feira Santa não se celebra a «missa», mas o Ofício da Paixão. Portanto, trata-se de outro alarme falso.

Quando não se celebra a «missa», a liturgia introduz, entre outras, uma oração por nossos «irmãos mais velhos», segundo a fórmula de João Paulo II, na sinagoga de Roma, em 13 de abril de 1986.

«É uma oração ‘universal’, por toda a humanidade – explica o especialista. O ofício próprio desse dia inclui uma longa série de orações nas quais se encomendam a Deus todas as categorias de crentes (também os não crentes) que integram a humanidade», precisa o Pe. Remaud.

E acrescenta que «até 1959 se rezava, entre outras intenções, em latim, ‘pro perfidis judaeis’. Mas, inclusive depois da supressão feita por João XXIII do adjetivo ‘pérfidos’, a oração continuou empregando fórmulas que se podiam considerar prejudiciais aos judeus».

«Pérfidos» não tinha em latim o sentido pejorativo que depois assumiu nas línguas vernáculas. Procede literalmente de «per» e «fides», ou seja, o que persiste ou permanece em sua fé.

A fórmula «caiu em desuso alguns anos depois, com a promulgação do missal chamado ‘de Paulo VI’», em parte, por causa do pejorativo significado que a fórmula assumiu.

Assim, a autorização de Bento XVI para utilizar este antigo missal com a fórmula emendada se usou pela primeira vez na liturgia do Ofício de Paixão da Sexta-Feira Santa de 2008.

João Paulo II, em 1984, autorizou o uso do antigo missal para os seguidores do arcebispo Marcel Lefebvre que haviam retornado à comunhão com Roma.

A antiga fórmula, portanto, foi usada durante 24 anos por algumas comunidades católicas sem que ninguém protestasse, sublinha o Pe. Remaud.

O «motu próprio» Ecclesia Dei remete, com efeito, à carta Quattuor Abhinc Annos, que diz claramente: «O soberano pontífice, desejando satisfazer estes grupos, oferece aos bispos diocesanos a faculdade de usar um indulto, para permitir aos sacerdotes e aos fiéis enumerados explicitamente no pedido apresentado a seus bispos, celebrar a Missa usando o Missal Romano editado oficialmente em 1962», observando quatro normas, entre elas que «esta celebração deverá fazer-se seguindo o Missal Romano de 1962 em latim».

Antes de dar sua autorização, Bento XVI pediu outra modificação, «proibindo inclusive a quem usa a título excepcional o missal anterior ao Concílio, tornar a utilizar já estas expressões».

«Paradoxalmente – faz notar o especialista –, é justamente a decisão de corrigir uma fórmula, julgada inaceitável e utilizada por um número muito restringido de católicos [uma vez ao ano], o que suscitou toda esta indignação.»

Não existe a palavra conversão

Há um último alarme falso surgido no debate em torno da oração: a palavra «conversão».

O Pe. Remaud destaca que «todo o debate suscitado por esta decisão se concentrou em uma palavra que não aparece no texto, ‘conversão’», e que «pedir a Deus que ilumine os corações é uma coisa, e pressionar as pessoas para tentar convencê-las é outra. A diferença é mais que de matiz».

Por isso, propõe este questionamento «mais fundamental»: se o cristão considera Jesus como «o Salvador de todos os homens» e expressa esta convicção em sua liturgia, pode-se impedir seu diálogo com quem não compartilha sua fé?

terça-feira, 13 de maio de 2008

Bento XVI faz balanço das relações entre Santa Sé e Israel

No discurso ao novo embaixador desse país

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 12 de maio de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos o discurso que Bento XVI dirigiu nesta segunda-feira ao novo embaixador de Israel ante a Santa Sé, Mordechay Lewy.

* * *

Excelência:

Com alegria dou-lhe as boas-vindas no início de sua missão e apresentação das cartas que o acreditam como embaixador extraordinário e plenipotenciário do Estado de Israel na Santa Sé. Agradeço-o por suas amáveis palavras e peço-lhe que transmita ao presidente Shimon Peres minhas respeitosas saudações e minhas orações pelas pessoas de seu país.

Mais uma vez, transmito meus melhores desejos por ocasião da celebração dos 60 anos do estabelecimento do Estado de Israel. A Santa Sé se une ao senhor na ação de graças ao Senhor pelo fato de que se tenham cumprido as aspirações do povo judeu a ter uma casa na terra de seus pais, e espera poder ver logo um tempo de maior regozijo, quando uma paz justa resolva finalmente o conflito com os palestinos. A Santa Sé valoriza particularmente suas relações com Israel, estabelecidas há 15 anos, busca desenvolvê-las, fortalecendo o respeito, a estima e a colaboração que nos une.

Entre o Estado de Israel e a Santa Sé há numerosas áreas de interesses mútuo que podem ser exploradas com proveito. Como o senhor assinalou, a herança judaico-cristã deverá inspirar-nos para promover múltiplas formas de atividades sociais e humanitárias em todo o mundo, entre outras, lutando contra toda forma de discriminação étnica. Compartilho o entusiasmo de sua excelência pelos intercâmbios culturais e acadêmicos levados a cabo entre as instituições católicas de todo o mundo e as da Terra Santa, e eu também desejo que estas iniciativas se desenvolvam ainda mais nos próximos anos.

O diálogo fraterno que acontece no âmbito internacional entre judeus e cristãos está dando muito fruto e tem de continuar com compromisso e generosidade. As cidades santas de Roma e Jerusalém são importantíssimas fontes de fé e sabedoria para a civilização ocidental e, por conseguinte, os laços entre Israel e a Santa Sé têm uma ressonância mais profunda que os derivados formalmente da dimensão jurídica dos mesmos.

Excelência, sei que o senhor compartilha minha preocupação pela alarmante diminuição da população cristã no Oriente Médio, incluindo Israel, por causa da emigração. Certamente, os cristãos não são os únicos que sofrem os efeitos da insegurança e da violência como resultado dos diferentes conflitos na região, mas em muitos aspectos são particularmente vulneráveis nestes momentos.

Rezo para que, como conseqüência da crescente amizade entre Israel e a Santa Sé, encontrem formas para tranqüilizar a comunidade cristã de maneira que recobre esperança em um futuro seguro e pacífico em seus lares ancestrais, sem sentir a pressão de ter de emigrar a outros lugares do mundo para edificar novas idéias.

Os cristãos na Terra Santa desfrutaram há muito tempo de boas relações tanto com os muçulmanos como com os judeus. Sua presença em seu país e o livre exercício da missão e a vida da Igreja nele representam um potencial para contribuir significativamente a cicatrizar a separação entre ambas comunidades. Rezo para que assim seja e convido seu governo a continuar explorando caminhos para aproveitar a boa vontade dos cristãos, seja a favor dos descendentes naturais do povo que escutou em primeiro lugar a Palavra de Deus, seja a favor de nossos irmãos e irmãs muçulmanos, que há séculos vivem e praticam o próprio culto na terra que as três tradições religiosas definem como «santa».

Percebo que as dificuldades dos cristãos na Terra Santa estão também ligadas à tensão contínua entre as comunidades judaicas e palestinas. A Santa Sé reconhece o direito legítimo de Israel à segurança e à própria defesa e condena firmemente qualquer forma de anti-semitismo. Também sustenta que todos os povos têm direito a que lhes sejam concedidas as mesmas oportunidades para desenvolver-se. Portanto, peço a seu governo que faça todos os esforços possíveis para aliviar as dificuldades que a comunidade palestina sofre, dando-lhe a liberdade necessária para levar a cabo suas atividades legítimas, incluindo o acesso a seus lugares de culto, para que desfrutem de uma maior paz e segurança.

Obviamente, estes temas só podem ser tratados no contexto mais amplo do processo de paz no Oriente Médio. A Santa Sé acolhe o compromisso expressado por seu governo de continuar com o impulso que se voltou a ativar em Anápolis e reza para que as esperanças e as expectativas suscitadas naquela sede não sejam decepcionadas. Como observei em meu recente discurso nas Nações Unidas, em Nova York, é necessário percorrer todo caminho diplomático e prestar atenção «aos mais tênues sinais de diálogo de reconciliação», se querem resolver os conflitos. Quando todas as pessoas da Terra Santa viverem em paz e harmonia, em dois estados soberanos independentes, o benefício para a paz do mundo será inestimável e Israel será realmente «luz entre as nações» [o Papa escreveu esta expressão em caracteres hebraicos que não podemos transcrever por razões técnicas, N. do T.] (Isaías 42, 6), um luminoso exemplo de resolução de conflitos que o resto do mundo poderá seguir.

Muito trabalho foi dedicado a formular os acordos que desde então foram assinados por Israel e a Terra Santa e é de desejar que as negociações relativas a questões econômicas e fiscais consigam logo uma conclusão satisfatória. Obrigado por suas palavras tranqüilizadoras sobre o compromisso do governo de Israel por uma solução positiva e rápida dos problemas que ainda ficam por resolver. Sou consciente de que falo em nome de muitos quando expresso a esperança de que estes acordos possam ser integrados logo no sistema jurídico interno israelense e fixar assim o fundamento duradouro para uma cooperação fecunda.

Dado o interesse pessoal que sua excelência tem pela situação dos cristãos na Terra Santa, e que é sumamente valorizado, sei que compreende as dificuldades causadas pelas contínuas incertezas sobre seus direitos e status legal, em particular a propósito da questão dos vistos do pessoal eclesiástico. Estou certo de que fará tudo o que puder para facilitar a resolução dos demais problemas de uma maneira aceitável para todas as partes em causa. Só quando estas dificuldades forem superadas, a Igreja poderá desenvolver livremente suas obras religiosas, morais, educativas e caritativas na terra na qual nasceu.

Excelência, rezo para que a missão diplomática que começa hoje reforce ulteriormente os vínculos de amizade entre a Santa Sé e seu país. Pode estar seguro de que os diferentes dicastérios da Cúria Romana estarão sempre dispostos a oferecer-lhe ajuda e apoio no cumprimento de seus deveres. Com meus melhores desejos, invoco para o senhor, para sua família e para todo o povo do Estado de Israel as abundantes bênçãos de Deus.

[Tradução: Élison Santos. Revisão: Aline Banchieri

© Copyright 2008 - Libreria Editrice Vaticana]

Falece «uma das mais heróicas salvadoras católicas do holocausto»

Irena Sendler salvou a vida de 2.500 crianças judias

VARSÓVIA, segunda-feira, 12 de maio de 2008 (ZENIT.org).- Irena Sendler, conhecida como «o anjo do Gueto de Varsóvia» por ter salvado do Holocausto 2.500 crianças judias, faleceu nesta segunda-feira em Varsóvia, aos 98 anos.

Irena era uma assistente social polonesa que organizou e dirigiu um grupo de mais de 20 pessoas para salvar da morte certa as crianças nesse bairro da capital polonesa sob a ocupação nazista. Como ela explicou depois, pôde realizar este trabalho graças à ajuda de religiosas polonesas.

A Fundação Internacional Raoul Wallenberg, uma organização não-governamental educativa internacional, fundada pelo argentino Baruj Tenembaum, que analisou e documentou numerosos casos de salvadores do Holocausto, em declarações à Zenit qualificou Sendler como «uma das mais heróicas salvadoras católicas do Holocausto».

Esta fundação com sede em Jerusalém, Nova York e Buenos Aires, recorda que este trabalho levou Irena a suportar a tortura na prisão nazista e uma condenação à morte que para sua sorte não foi executada.

Irena Sendler nasceu na Polônia em 1910. Quando a Alemanha invadiu o país em 1939, Irena era enfermeira no Departamento de Bem-estar Social de Varsóvia que era responsável pelos refeitórios da cidade.

Lá trabalhou incansavelmente para aliviar o sofrimento de milhares de pessoas, tanto judias como católicas. Graças a ela, estes refeitórios não só proporcionavam comida para órfãos, anciãos e pobres, mas também entregavam roupa, medicamentos e dinheiro.

Para evitar as inspeções, registrava as pessoas sob nomes católicos fictícios ou as inscrevia como pacientes de doenças muito contagiosas, como o tifo e a tuberculose.

Mas em 1942, com a designação de uma área fechada para alojar os judeus, conhecida como o «Gueto de Varsóvia», as famílias só podiam esperar uma morte certa.

Irena se uniu ao Conselho para a Ajuda de Judeus, organizado pela resistência polonesa, explica a Fundação Wallenberg em sua biografia enviada à Zenit. Conseguiu obter um passe do Departamento de Controle Epidêmico de Varsóvia para poder ingressar ao gueto em forma legal. Persuadir os pais de separar-se de seus filhos era um trabalho horroroso para uma jovem mãe como Irena. «pode assegurar que viverá?», Irena perguntava aos angustiados pais. Mas só podia garantir que morreriam se ficassem. «Em meus sonhos, ainda posso ouvi-los chorar quando deixavam seus pais», dizia depois.

Após a guerra, trabalhou para o bem-estar social; ajudou a criar casas para anciãos, orfanatos e um sérvio de emergência para crianças.

Em 1965 recebeu o título de Justa entre as Nações pela organização Yad Vashem de Jerusalém e em 1991 foi declarada cidadã honorária de Israel.